
“Michael” é em nada muito diferente do que qualquer um poderia esperar de uma cinebiografia musical moderna — ainda mais vinda do mesmo produtor criativo-chefe de “Bohemian Rhapsody” (Bryan Singer, 2018). Tem cada nota dramática que você já consegue imaginar sendo encaixada, aparada, desviada ou adoçada em relação aos fatos reais da história de sua figura-título, concebidos dentro do molde genérico dessa fórmula habitual de cinebiografia hollywoodiana aprovada por comitê e curada por contratos, resultando no produto enlatado e pronto de fábrica. Isso até faz ser um pouco difícil alguém se zangar com o diretor Antoine Fuqua e sua equipe criativa, já que eles foram claramente jogados a esse canto criativo limitado, em que só se pode tentar fazer algo dentro de limitações na tentativa de extrair o melhor resultado palatável possível do material.
Acontece que esse “material” é Michael Jackson. Então, você pode ter certeza que este definitivamente não é o filme que o Rei do Pop merecia, muito menos o filme de que precisávamos. Ele conjectura apenas uma fração mínima do impacto cultural do astro na música e na sociedade, e sequer chega perto de fazer justiça em capturar ao menos metade da grandiosa complexidade da história de sua vida, por mais que logre alcançá-lo em uma narrativa que pode muito bem ser definida como uma sequência de montagens de karaokê “greatest-hits” costuradas e somente interrompidas apenas por cenas de drama básico, monocórdico e encenado em planos médios.

Evitando qualquer forma de confronto, o filme de Fuqua apenas marca os típicos pontos dramáticos previsíveis e higienizados, além de retratar o patriarca Joseph Jackson (um desconfortável – no melhor sentido – Colman Domingo) como o monstro opressor, manipulador e venenoso: a cena entre ele e Don King tramando a turnê de reunião da Pepsi de 1984 dos Jackson 5, como se fossem vilões maquiavélicos, é risível!
Se você conhece um pouco da história real de Michael, as ausências chegam a se tornar histericamente distrativas. Algumas omissões e ausências gritantes incluem:
– Diana Ross, o que é um tiro no próprio pé;
– absolutamente qualquer coisa sobre Janet Jackson, alguém que foi um fenômeno por mérito próprio e diretamente ligada a Michael;
– Jermaine Jackson, diminuído a um papel de figurante de fundo, apagada a intensa rivalidade profissional entre os irmãos, que, inclusive, despertou alguns dos piores lados de Michael;
– a importância de Quincy Jones, severamente subutilizada, para as composições da música de Michael;
– as acusações de abuso sexual infantil, obviamente — embora seja especialmente estranho, já que elas são prenunciadas e aludidas narrativamente mais de uma vez —, como se usar o evento fosse funcionar enquanto um epitáfio trágico: o que talvez fosse a ideia inicial, antes de as refilmagens do estúdio mutilarem o filme para o formato confortável e “acessível ao público”.

Escusado dizer que a crítica tem todo o direito de apontar o que considera uma afronta neste filme, tal como a mídia tradicional demonstrou, em discrepância à recepção esmagadoramente positiva do público. Mas o fato é: todo mundo nesses veículos queria sangue, assim como também é inegável que se criou uma hiperfixação em torno da natureza das acusações, que já chegaram a um ponto de saturação, deixando de ser uma busca pela verdade — refutada inúmeras vezes e provada falsa — para se tornar uma perseguição inexplicável movida por lucro, com grande parte do discurso crítico seguindo exatamente essa tendência de manchete sensacionalista. Algo que continua afastando-nos da verdadeira imagem e da importância cultural que Michael Jackson teve, ou de quem ele realmente era, o que talvez me faça acreditar que o filme busca remediar isso de uma forma que não parece ser apenas um movimento do espólio dos Jackson para proteger e limpar a imagem de Michael, e a deles próprios — ainda mais com John Branca sendo interpretado por Miles Teller com uma passividade excessivamente positiva, algo que, se você conhece um pouco da história, soa bastante incômodo.
Ainda assim, qualquer um que compare esse filme a “Bohemian Rhapsody” só pode estar movido por puro ódio. Aquele filme parecia muito mais compartimentalizado por imposições legais e de direitos sobre sua produção, enquanto “Michael“ ao menos tem coração em sua feitura, o que já é mais do que se pode dizer de muitos desses projetos caça-níqueis capados. “Michael” é conduzido pelas mãos invisíveis e operárias de Fuqua de forma honestamente decente e segura para aquilo a que se propõe. O lado otimista em mim gostaria de acreditar que, dado o apreciador de gênero classicista subestimado que ele é, Fuqua simplesmente mergulhou de cabeça e torrou o orçamento multimilionário de uma cinebiografia genérica padrão para construir algo que fica em algum lugar entre um musical grandioso e um melodrama geracional sólido.

As recriações de Beat It e Thriller são divertidas pelo que são, dentro desse brilho nostálgico fácil. E, como história de um homem tentando escapar das correntes das projeções, traumas impressos e do controle de seu pai, ou da eterna criança que encontra no show business uma forma de fuga e libertação do seu verdadeiro eu, é simplista, porém emocionalmente funcional à sua maneira, e… bem, funcionou a ponto de quase me levar às lágrimas em algumas cenas.
O núcleo do filme é amplamente sustentado pelo apelo natural que o próprio Michael Jackson possui, embalado pela música maravilhosa de um dos artistas mais brilhantes que já caminharam sobre a Terra, e pelos acontecimentos inegavelmente fascinantes de sua própria vida e carreira, dos quais nem metade caberia em um filme de duas horas.

E quando o filme se apoia nisso, não apenas em acenos nostálgicos, mas tentando mostrar a pessoa e a persona, mostrar Michael era genuinamente gentil e caridoso, daquela forma afetuosa, humana e bondosa; mostrar como era lguém que não distinguia cores, que amava a todos; que tinha Bill ao seu lado o tempo todo (o verdadeiro pai que merecia); como era um cinéfilo de gosto impecável e também um empresário/showman extraordinário… uma mente artística pensante como nenhuma outra, e definitivamente com um certo ego — e com todo o direito de tê-lo —, o filme acerta mais do que erra em alguns momentos… o suficiente para que eu seja um pouco mais indulgente.
Além disso, existe uma genuína magia espiritual acontecendo aqui. Juliano Krue Valdi como o jovem Michael assustou-me muito pelo quão adorável é, além de ter sido o uso do playback tão perfeito, que nem parecia gravado e sim como a própria voz.

Enquanto isso, Jaafar Jackson capturou a essência de uma forma que nunca parece pura imitação mecânica, antes uma incorporação natural nos gestos e numa sensibilidade sincera, redobrando o esforço para reproduzir cada gesto conhecido, o timbre da voz e os trejeitos, sem fazer nada soar caricatural, como poderia facilmente acontecer. Além do que, no final, ele incorpora a persona de palco num grau quase assustador.
Talvez “celebração” ou “carta de amor à carreira” nunca sejam suficientes como válido mérito artístico e cinematográfico, nem tragam justiça real ao homem que tanto merecia. Todavia, como projeto de entretenimento, fez exatamente o que Michael sempre fez — e ainda faz até hoje: nos fez felizes!
