
Pouco antes de assistir a Marty Supreme (2025), perguntava-me como um filme de 150 minutos sustentaria uma abordagem frenética dentro de um biodrama sem diluir sua força ou trair sua própria natureza. Diferente dos outros trabalhos que Josh dirigiu ao lado do irmão, aqui a trama circunda um eixo mais legível, mais assimilável, quase classicamente estruturado. Não surpreende que seja o primeiro a atravessar com facilidade o circuito institucional que historicamente ignorava seu cinema.
Uma das respostas começa no próprio método da execução. O pipeline híbrido (analógico e digital mesclados), ao invés de ser mero capricho técnico, emerge como estratégia dramatúrgica. O digital surge como instrumento de controle, sobretudo em cenas externas de luz complexa e nos blocos mais longos que acompanham o fluxo mental de Marty (Timothée Chalamet). Ele intensifica o caos sem permitir que este rompa a legibilidade. Já a película, sobretudo em 35mm, monumentaliza o drama introspectivo. A imagem ganha densidade física, pequenas variações orgânicas e um peso quase documental, elementos que ancoram emocionalmente o protagonista e destacam sua presença. Não há aqui a vertigem urbana descontrolada, e sim um balé dopaminérgico cuidadosamente calibrado, menos aberto às possibilidades do caos urbano de seus trabalhos anteriores, permitindo uma narrativa mais longa, cadenciada, sem sacrificar seu grande charme agitado e nervoso.
Essa escolha marca uma ruptura clara com Joias Brutas (2019) e Bom Comportamento (2017). Nos filmes anteriores, o personagem era absorvido por um ecossistema hostil e esmagado por um mundo de ação e reação imprevisíveis. O caos era sistêmico. O espaço urbano precedia o sujeito e o engolia. Em Marty, inverte-se o movimento. O mundo torna-se relativamente palpável, inteligível. O caos começa e termina no escopo interno do protagonista. A mise-en-scène orbita Marty, não o contrário, abraçando uma tradição mais clássica na forma como desenrola sua trama, o que é acentuado pela perspectiva estruturada em competição, desafios, vitórias, derrotas, revanches e um vilão a ser superado, aqui representado por Endo, campeão japonês em um contexto pós-bomba. Com um embate que coloca em atrito o orgulho de duas nações, o olhar contínuo sobre o próprio jogo de tênis de mesa já indica uma estabilidade visual que desloca a energia da cena para a performance como centro gravitacional absoluto. A confiança está menos naqueles cortes e ângulos inusitados de Joias Brutas, e principalmente de Só Deus Sabe (2014), com suas cenas memoráveis de performances naturalistas, além das sequências de guerrilla filmmaking.

A montagem consuma essa mudança: ainda pulsante, ainda acelerada, mas agora organizada. A cadência espacial é preservada, ao passo que a tensão não nasce da desorientação geográfica e de cortes violentos, mas da imprevisibilidade comportamental. O espectador teme o que Marty fará dentro do espaço e da ação, ao invés de temer por como ele próprio estará ali. Trata-se de uma dramaturgia centrípeta, com consequências plantadas como farpas que inevitavelmente retornam. A mais icônica é a trama do criminoso e de seu cão, em que a perda de um cachorro iria culminar em um tiroteio, uma gestante baleada e três homens mortos. O arco geral acontece ao longo de nove meses, marcado pela gestação de seu filho, estabelecendo uma progressão orgânica e clássica. Há plantio, amadurecimento e retorno. Expectativas de imagem-ação (no sentido deleuziano) são cumpridas. Mesmo no caos, os planos malucos funcionam. Ele tropeça, machuca-se, é estapeado, mas avança. Sai do ponto A e chega ao ponto B, com o vórtex trágico, antes de absorvê-lo, funcionando mais como um mediador estrutural que organiza (aqui, de fato, organiza) os desafios de Marty.
Trata-se de um personagem não menos complexo que Howard Ratner e Nick Nikas, entretanto com função distinta em uma cosmologia diferente. O frenesi e o ritmo dos filmes anteriores permanecem, porém agora de maneira interna, pessoal, em um mundo nitidamente organizado em comparação às narrativas precedentes dos diretores. Essa é a mutação fundamental. O personagem trágico dos Safdie, condenado por sua própria compulsão, transforma-se em campeão caótico. O fracasso deixa de ser destino inevitável e passa a ser obstáculo superável. O caos não é mais o fim definitivo. Aqui, ele é metabolizado, dominado pela obsessão do protagonista. A narrativa abandona a ética do colapso e flerta com a eficácia, tornando-se, de fato, uma narrativa da escalada ao topo, da busca pelo sonho americano, em lugar de uma narrativa sobre como esse sonho destruiria o protagonista.

Não se trata necessariamente de amadurecimento formal, nem de capitulação. O que se observa é a migração de Josh do marginal ao institucional, movimento recorrente na história do cinema americano. Assim como Sean Baker recalibrou seu cinema ao transitar do risco cru de seus primeiros trabalhos para estruturas mais assimiláveis em Anora (2024), aqui o que se radicaliza não é a forma, mas a “eficácia”. O método permanece energético, porém agora opera dentro de um modelo dramatúrgico reconhecível, próximo dos filmes sobre obsessão e sonho americano que tradicionalmente ocupam espaço na temporada de premiações (ênfase no Oscar, competição onde Chalamet, mesmo com as polêmicas recentes, ainda brilha como um dos favoritos).
Marty Supreme não abandona exatamente o caos safdiano. Torna-o produtivo e higienizado. O mundo deixa de ser força implacável para tornar-se campo de performance, assim como o esporte. Se antes os Safdie filmavam homens à beira do precipício, aqui filmam alguém que aprendeu a correr sobre ele em uma corda bamba. Nesse deslocamento talvez resida a chave de sua consagração: um cinema que mantém a adrenalina autoral enquanto oferece ao sistema a estrutura que ele sabe reconhecer.

