
Sonhos de Trem (Trains Dreams, 2025) é um drama contemplativo dirigido por Clint Bentley, inspirado na novela de mesmo nome de Denis Johnson, publicada em 2002. Lidando, no material base, com um texto curto e de impacto instantâneo, o filme preserva o tom introspectivo que beira a prosa poética para contar a história silenciosa de um homem comum no começo do século XX.
O protagonista, Robert Grainier, interpretado por Joel Edgerton, é um trabalhador braçal que ajuda na construção das ferrovias e na exploração madeireira no noroeste dos Estados Unidos. A narrativa acompanha décadas de sua vida, marcada por muito esforço, casamento, paternidade, momentos difíceis e solidão. Não é épica no sentido tradicional, mas sim uma reflexão sobre o passar do tempo, sobre o isolamento e como o mundo rural foi mudado pela chegada da modernidade industrial. Os acontecimentos da vida de Robert sobre os quais essa narrativa se estrutura são simples, como a construção de trilhos e o casamento com Gladys. No entanto, ele também passa por um evento devastador que muda sua vida completamente, além do processo de envelhecimento em um território que se moderniza muito rápido. A evolução de Grainier acompanha a evolução narrativa: ambas marcadas por progresso, mudanças, civilização e momentos de ruptura. No fim, o personagem é um “ninguém” que encerra sua jornada existencial, completamente desconhecido.

Esteticamente, o filme adota um ritmo deliberadamente lento, com ênfase em paisagens amplas, silêncio e poucos diálogos. A influência visual de Terrence Malick é perceptível no modo como a natureza e o tempo são tratados como presenças quase espirituais. Ainda assim, reduzir o filme a essa referência empobrece sua proposta.
Há também ecos do cinema tardio de Paul Schrader, sobretudo na austeridade formal com que a interioridade do protagonista é sugerida. A fotografia privilegia florestas densas, montanhas e campos abertos, estabelecendo um contraste constante com a solidão humana. A narrativa assume um estilo contemplativo, sisudo, quase ascético, aproximando-se mais de um poema visual do que de um drama convencional centrado em conflitos externos. Surge, assim, uma espécie de correspondência entre a interioridade humana e a magnitude da criação.
Entre as obras que disputam as premiações deste ano, trata-se de uma das mais sóbrias e, ao mesmo tempo, mais belas. É um misto que me remete à filosofia de Søren Kierkegaard, essa que acho bastante proveitosa para pensar o filme. De maneira simplificada, Kierkegaard descreve três estádios, que são três modos qualitativamente distintos de existência: o estético, o ético e o religioso. São possibilidades existenciais, sendo que nem todo mundo passa pelas três, ou mesmo, às vezes, por duas delas, tampouco nessa mesma ordem. Sonhos de Trem, quando visto por esse prisma, apresenta um Robert Grainier que encarna, tensiona, ou apenas tangencia tais formas de vida, sendo a descoberta de como ele está fazendo isso a cada vez a mais interessante aqui.

No que diz respeito ao estádio estético, caracterizado pela imediaticidade e pela ausência de reflexão profunda sobre o sentido da vida, o personagem não se encaixa no clássico. Ele não vive para o prazer, nem cultiva ironia ou hedonismo. Ainda assim, sua vida inicial possui algo de pré-reflexivo: trabalho físico intenso, rotina austera e uma inserção quase instintiva no fluxo histórico da expansão ferroviária. A existência simplesmente acontece, marcada por tarefas e pela passagem do tempo.
A passagem ao estádio ético torna-se mais visível com o casamento e a paternidade. Esses vínculos introduzem compromisso, continuidade e responsabilidade, elementos centrais do ético em Kierkegaard. Grainier passa a habitar uma forma de estabilidade construída pela repetição das escolhas e pela fidelidade às relações que assume.

O ponto decisivo, porém, é a tragédia. A perda devastadora rompe essa continuidade ética e expõe o personagem à experiência da angústia. Para Kierkegaard, a angústia é a vertigem da liberdade e da possibilidade: um momento em que o indivíduo se confronta com a fragilidade do próprio eu. Após a catástrofe, Grainier entra numa espécie de suspensão existencial marcada por isolamento e silêncio. A própria encenação do filme, com planos longos, paisagens vastas e diálogos escassos, traduz formalmente essa condição.
Nesse contexto surge a questão do estádio religioso. Em Kierkegaard, o religioso implica um salto qualitativo: uma relação paradoxal e absoluta com Deus. O filme, porém, não apresenta um gesto explícito desse tipo. Grainier não formula uma fé dramática, nem encena um movimento consciente de entrega ao absurdo.
Ainda assim, pode-se sustentar a presença de uma dimensão proto-religiosa em sua existência tardia. A contemplação da natureza, a convivência silenciosa com o tempo, bem como a aceitação da finitude, sugere uma reconciliação discreta com o real. Não se trata do religioso kierkegaardiano em sentido estrito, pois não há o escândalo da fé de Abraão, mas de algo que se aproxima da categoria da resignação infinita. Nesse movimento, o indivíduo aceita a perda absoluta sem ainda realizar o salto da fé. Sob essa perspectiva, o personagem parece mais próximo do cavaleiro da resignação do que do cavaleiro da fé.

A linguagem escolhida pelo diretor Clint Bentley reforça essa leitura. A dilatação temporal e a paisagem como presença quase transcendente deslocam a narrativa do plano psicológico para algo mais amplo. O mundo revela-se maior que o indivíduo, e a vida humana aparece como pequena, sem, contudo, ser insignificante. Uma das cenas mais sugestivas, e uma das minhas favoritas, ocorre quando Grainier experimenta um voo de avião pela primeira vez. A cena transforma sentimentos difíceis de nomear em experiência sensível: serenidade, espanto e uma súbita percepção da própria existência no presente.
Minha comparação com Kierkegaard não é mero artifício discursivo. Antes de dramatizar conscientemente os estádios da existência, o filme oferece uma matéria humana que pode ser iluminada por eles. Para sintetizar, se preciso for: Grainier atravessa a esfera ética, é quebrado pela experiência da angústia e permanece numa resignação silenciosa que toca o limiar do religioso sem jamais proclamá-lo.
