
Desde que o mundo do cinema pós-moderno tomou consciência, toda vez que Christopher Nolan está prestes a anunciar seu próximo filme as discussões entre cinéfilos na internet entram em um frenesi de especulações ansiosas, superado apenas pelas discussões que surgem após o anúncio oficial, perguntando-se o que raios ele pretende fazer ou como vai lidar com determinado material/conceito. É justo dizer que essas discussões jamais tenham sido tão intensas e polarizantes quanto as que precederam A Odisseia.
Em um primeiro momento, tudo girava em torno de como o contador de histórias elíptico e obcecado por um realismo pé no chão lidaria com o universo mitológico e fantástico da obra de Homero. Logo depois, porém, a conversa passou a girar quase exclusivamente em torno das escolhas raciais do elenco. Um ponto de discórdia que pairou sobre as discussões do filme antes de seu lançamento e continuaram presentes até agora. Sobre isso, apenas direi: a mesma indústria que um dia considerou perfeitamente aceitável John Wayne interpretar Gengis Khan e Laurence Olivier interpretar Otelo é a mesma que hoje aceita gregos afrodescendentes, asiáticos e latinos. A mesma indústria, as mesmas regras, apenas com fundamentos morais diferentes — e ambos questionáveis! Tirando a Lupita Nyong’o em uma das entrevistas promocionais dizendo que perguntaria a Homero sobre a falta de representação feminina em sua obra original, que foi o mais perto que se esteve de alguma concórdia com discurso progressista, nada a se comentar de relevante ou impressivo para alguém com menos de 4 minutos de tela fazendo pose e frases-chave (e, claro, como qualquer ator, sendo, de praxe, o papagaio falante mais ignorante do mundo, ela que claramente nunca se deu ao trabalho de ler o poema).
O Simon de Elliot Page, porém, é uma questão interessante, pois acho que nem mesmo Virgílio poderia prever o quão importante esse personagem acabaria se tornando quando escreveu a Eneida, de onde Nolan o retirou e onde o personagem praticamente faz exatamente aquilo que faz na obra de Virgílio, apenas expandindo um pouco mais seu papel dentro do contexto de A Odisseia. Não com o ator interpretando Aquiles, como se especulava, mas, na verdade, tomando o lugar do lendário herói no segmento de Hades.
Entretanto, após o lançamento do filme, e agora que praticamente todos já o assistiram, a discussão passou a girar em torno do julgamento moral de abordar a história de Homero através de lentes pós-modernas, o que, na verdade, é apenas uma extensão da discussão que já existia sobre Nolan ter se inspirado na infame tradução pós-moderna de Emily Wilson para a Odisseia. Uma tradução que transforma o orgulho e a húbris/ego originais de Odisseu em culpa e negação, deslocando o foco da narrativa para além dos perigos da jornada e reenquadrando-a com insinuações de consciência social, insinuações da ideia de assumir responsabilidade por seus atos e blá blá blá. Em um sentido mais amplo, trata-se essencialmente de enquadrar a história dentro da culpa e do remorso do (homem) branco americano. E sim… isso realmente é presente no filme de Nolan, não há como negar.

Então eis o fato fundamental: A Odisseia de Homero NÃO é a história de um homem destruído em busca de absolvição. É a história de um homem que se esforça para restaurar a ordem: em si mesmo, em sua casa e em seu reino, por meio da inteligência, da perseverança e de uma contenção conquistada com muito esforço. Seu orgulho é moderado, mas não apagado. Odisseu continua ambicioso, astuto e formidável até o fim. É o ideal heroico grego encarnado à décima potência. Alterar isso não significa introduzir responsabilidade ou reflexão moral — elementos que já estavam presentes em Homero, em um grau dramático significativo. Odisseu é um herói falho e paga por isso inúmeras vezes. O que acontece, na verdade, é a substituição do universo moral de Homero pelo nosso, algo que o filme de Nolan definitivamente faz. A única questão que permanece é saber se essa releitura mantém um diálogo frutífero com a obra original ou se acaba eclipsando o próprio arcabouço moral e filosófico da fonte.
Pondero tudo isso porque não quero simplesmente reduzir o filme a um caso de “distorção liberal-progressista”, como muitos afirmam em alto e bom som. Na verdade, isso me parece algo praticamente inevitável sob a abordagem caracteristicamente passiva, ou melhor, neutra, de Nolan; uma abordagem que consegue, curiosamente, despertar antipatia dos dois lados do espectro político. E quem imaginava que ele penderia complacentemente apenas para agradar a esquerda talvez se surpreenda ao encontrar um filme que sustenta com firmeza valores do lar, da família e do amor, ao mesmo tempo em que aponta como a corrupção decorrente da ruptura das tradições fundamentais levou a civilização à selvageria.
Isso abrange desde um sentimentalismo ocasionalmente piegas, até as obsessões e neuroses habituais de Nolan em relação a profissionais altamente competentes consumidos pela culpa em decorrência do custo de suas ações, tanto em escala macro quanto em suas vidas pessoais. Nos filmes mais recentes, porém, essa preocupação escalou para um nível apocalíptico, à medida que ele se tornou cada vez mais melancólico e pesaroso em sua visão do futuro da humanidade.

A tragédia sempre foi um fio condutor em sua filmografia, mas, com “Oppenheimer” (Christopher Nolan, 2023), ele encarava de frente aquilo que acontece em seu rastro: a culpa, o luto, a dor e a incapacidade de reconhecer que esses personagens são diretamente responsáveis pelas calamidades que recaem sobre eles. Diferentemente de seus protagonistas anteriores — incapazes de encarar essas realidades, afundando-se na morte (“O Grande Truque”), na autoilusão e na negação (“Amnésia”), ou perdendo-se para sempre nos sonhos (“A Origem”) —, aqui a culpa consome-os completamente, corroendo lentamente o âmago de seus seres, como se devorasse-lhes o fígado. O avanço da idade de Nolan e seu amadurecimento progressivo revelam um diretor mais sombrio e lamentoso, impregnado por uma desolação palpável e melancólica na maneira como constrói seus universos. O resultado são filmes que compartilham praticamente a mesma visão apocalíptica do futuro da civilização: a humanidade provocando a própria ruína. Condenando a si mesma por meio do próprio egoísmo, perpetuando guerras, erguendo impérios e sacrificando vidas… uma tradição ancestral que continua pavimentando o futuro — e em que nossas maiores virtudes, inteligência, ambição, organização e domínio tecnológico, são inseparáveis de nossa capacidade de autodestruição.
Isso começou em “Tenet” (Christopher Nolan, 2020), e desde então vem sendo sugerido como um elo de continuidade entre suas obras. Primeiro, um filme literalmente sobre o futuro enviando armas para destruir o passado e sobre como o presente afetará a posteridade. Em determinado momento, o Projeto Manhattan é mencionado, e discute-se como Oppenheimer temia que o teste atômico desencadeasse uma reação em cadeia capaz de destruir o mundo, ou, ao menos, de alterar para sempre o mundo como o conhecíamos.
Logo depois, seu próximo projeto, justamente a biografia de Oppenheimer, inicia-se com uma inscrição que ecoa Prometeu, o mito grego fundamental:
“Prometeu roubou o fogo dos deuses e entregou-o aos homens. Por isso foi acorrentado a uma rocha e torturado por toda a eternidade.”
A partir daí, o filme passa a habitar o tormento de um homem diante do custo de seu próprio ego para o futuro da civilização moderna. A reação em cadeia irreversível não é apenas a descoberta nuclear em sentido físico, mas também seu preço sobre a mentalidade política e tecnológica das eras que viriam.
Chegar agora a um mito fundacional da Antiguidade como a Odisseia pode soar como uma afirmação exageradamente grandiosa em proclamar que estamos diante da culminação definitiva do maior cineasta popular em atividade, adaptando uma das maiores histórias já contadas e o texto fundador de praticamente todos os mecanismos narrativos imagináveis, cujos elementos ecoaram pela literatura e pelo cinema durante quase três milênios. Isso, porém, seria verdadeiro para qualquer outro diretor ou gênero, tal como negar essa importância a Nolan seria igualmente falso. Afinal, identidade, memória, civilização, família, hospitalidade, violência, e consequências — temas de Homero — também são temas que Nolan vem explorando há anos. Some-se a isso sua estrutura narrativa não linear, e o bolo está pronto: tudo isso esteve diante de Nolan o tempo inteiro.
O diretor britânico vem abordar essa história com um pragmatismo à la Ridley Scott, privilegiando uma textura terrena, concreta e realista, sustentada por uma carga política subjacente, ao passo que aspira à intimidade psicológica de David Lean em contraste com a vastidão das paisagens que cercam o protagonista, tudo ancorado pelos sombrios dilemas morais de Akira Kurosawa — especialmente “Ran”(Akira Kurosawa, 1985), que vem imediatamente à mente por sua tragédia marcada pela auto-tormenta, envolta por essa aura sobrenatural e mística de antigas lendas que moldam histórias sobre homens violentos.

Ainda assim, a impressão é de que a mão guia por trás de tudo isso era claramente a vontade de Nolan de realizar, enfim, seu tão aguardado épico à la Ridley Scott dos anos 2000, depois de passar anos exaltando Scott e, provavelmente, convivendo com a ideia do Cavalo de Troia ocupando um espaço permanente em sua imaginação desde que “Troia” (Wolfang Petersen, 2004) foi-lhe tirado e entregue a Wolfgang Petersen, em 2004. Agora, finalmente munido do prestígio de Hollywood e de um cheque em branco para fazer literalmente o que quiser, Nolan pôde concretizar sua visão de um épico de espada e sandália utilizando a mais avançada tecnologia IMAX 70 mm, algo que também representa a culminação de seus muitos anos de obsessão pelo aperfeiçoamento da tecnologia cinematográfica.
A forma como isso se traduz em uma adaptação da a Odisseia é particularmente interessante, porque Nolan permanece surpreendentemente fiel à estrutura narrativa e aos principais encontros da sinuosa jornada de Odisseu. Não foge dos elementos fantásticos e, provavelmente, realiza a versão mais próxima de uma aventura de monstros à la Ray Harryhausen que um blockbuster moderno chegaria perto (desde“King Kong”, de Peter Jackson, talvez), graças à praticidade dos cenários e da escala física das produções, em que grande parte do espetáculo é alcançada diante das câmeras por meio de uma caríssima feitiçaria técnica. Ao mesmo tempo em que aborda tudo isso com uma sensibilidade sobrenatural, abraçando por completo seu talento para o horror, Nolan consegue fazer praticamente todos os episódios e encontros da Odisseia — assim como seus grandes set pieces — em autênticas sequências de terror, e isso funciona perfeitamente, tanto graças ao pedigree do gênero quanto à sua mão firme para o suspense formal.
Todo mundo tem elogiado (com razão) a cena do Ciclope, mas a ilha de Circe, em particular, apresenta um body horror digno de “Um Lobisomem Americano em Londres” (John Landis, 1981), com a carne humana sendo transformada em uma massa maleável, moldada e deformada em um grotesco processo de metamorfose. É tão absurdamente perturbador que eu simplesmente nunca imaginei que Nolan fosse capaz de alcançar esse nível de insanidade doentia, que me deixou orgulhoso.

Enquanto isso, boa parte do restante do filme, como a ilha dos gigantes Lestrigões (a única adaptação a incluir esse episódio), a descida ao mundo dos mortos em Hades, o monstro marinho Cila e o redemoinho de Caríbdis, podem lembrar sessões de RPG. No entanto, isso está longe de ser um defeito quando serve para impulsionar a estrutura episódica da narrativa com um verdadeiro espírito de aventura, e transmitir a crescente sensação de desespero e exaustão diante dos perigos da viagem, exatamente como deveria ser.
Os Comedores de Lótus não aparecem, mas as flores de lótus tornam-se um MacGuffin ligado a Calipso — uma solução extremamente apropriada dentro do contexto da autoilusão de Odisseu (pegando emprestado o elemento da amnésia presente na versão de Kirk Douglas de 1954). Ao mesmo tempo, essa escolha preserva a ideia original da tentação de abandonar o próprio propósito em troca de um conforto eterno e da tentação de fugir da responsabilidade, lembrando-nos de que, às vezes, o maior perigo não é a violência, antes a apatia.
Até mesmo a ausência da maior parte dos deuses, dos Feácios, de Éolo e do saco dos ventos não cobra um preço tão alto na tentativa de se afastar do fantástico em seu sentido mais estrito. A justificativa de Nolan para sua representação da divindade reside justamente em mostrar os deuses da maneira como aqueles personagens percebê-los-iam: sua existência como uma questão de fé, e não de prova direta, manifesta na própria natureza. E consigo enxergar isso funcionando na maneira como ele utiliza a monstruosa selvageria, o mistério da magia e a escala dos acontecimentos para transmitir a pequenez e a insignificância do ser humano diante dos deuses, da natureza e do peso de suas próprias ações.

Há, todavia, também outra camada: a construção de uma jornada rumo ao aprendizado de viver em harmonia com o plano dos deuses, com o divino presente no aqui e agora. São deuses pagãos, é verdade, mas… curiosamente dentro de uma visão muito cristã de fé e salvação, passando pelo arrependimento, pela culpa e chegando à redenção. Odisseu, no fim da jornada, literalmente compartilha um momento de confessionário com a esposa, divididos por uma divisória de madeira, tal qual um confessionário católico nada sutilmente implantado.
Por mais que seja facilmente o filme mais maduro de Nolan em termos formais e, ao mesmo tempo, o mais acumulativo em ambição, atuando como culminação de sua carreira onde reúne praticamente todos os seus truques de construção de grandes sequências em uma encenação finalmente (quase sempre) limpa visualmente quanto na movimentação de cena. A tensão de bomba-relógio de “Dunkirk” encontra a grandiosidade blockbuster de “Tenet”, permitindo que Nolan realize o grande épico que O Cavaleiro das Trevas Ressurge jamais conseguiu ser por completo — inclusive compartilhando um terceiro ato também centrado no retorno do herói ao lar para restaurar a ordem, que é executado aqui de maneira muito superior.
Há também alguns dos planos mais contemplativos e prolongados de toda a sua carreira. Ouso dizer: até mesmo elegantes. Ainda assim, ele continua recorrendo em alguns momentos ao excesso de câmera na mão e a uma montagem excessivamente fragmentada. Curiosamente, porém, isso não compromete a maioria dos grandes clímax, graças aos lampejos narrativos da obra.

Porém, apesar desse evidente refinamento, este também é o filme em que as fraquezas de Nolan ficam mais expostas e são justamente devido aos problemas usuais de sempre: escolhas de montagem excessivamente enfáticas, como se ele não confiasse plenamente na força das próprias imagens e, por isso, sentisse a necessidade de repetir a mesma informação dezenas de vezes (há cenas com um personagem literalmente narrando o que está acontecendo na tela). Esse lado excessivamente explicativo do diretor prejudica algumas partes do filme, com um didatismo que, por vezes, torna-se irritante. Personagens referindo-se a si mesmos como vivendo na Idade do Bronze e chamando sua própria sociedade de “a maior civilização conhecida pelo homem”… esse é o tipo de ego que não tenho certeza se os gregos antigos possuíam em relação a si mesmos, e que claramente funciona como um instrumento narrativo para que Nolan impulsione sua agenda temática. Chega ao ponto de o filme toma o relato histórico dos chamados “Povos do Mar”, uma misteriosa confederação de saqueadores marítimos que acelerou o colapso dos grandes impérios da Idade do Bronze através de invasões e pilhagens pelo Mediterrâneo por volta de 1200 a.C., e reinterpretá-los como essa ameaça apocalíptica pairando sobre Ítaca e toda a Grécia Antiga, para depois subverter historicamente a ideia ao revelar que os “Povos do Mar” eram os próprios itacenses.
Isso também funciona como uma clara ‘inversão de ideias de identidade’ semelhantes que ele já havia explorado em “Interestelar” (Christopher Nolan, 2014), em que os humanos do futuro eram os “alienígenas” que salvavam a humanidade, e em “Tenet”, no qual os humanos do futuro tentavam destruir o passado. Talvez Nolan ainda não tenha chegado completamente lá, mas ele está se aproximando de tendências niilistas. Aqui, ainda parece continuar tentando abrir um caminho em direção ao sol, buscando esperança para além da cova que a própria humanidade cavou para si, mesmo enquanto lamenta tudo aquilo que foi perdido:
“Aquilo que mais desejamos é justamente o que nunca podemos ter; e aquilo que nunca podemos ter é exatamente o que um dia já tivemos e perdemos.”
O último terço do filme não apenas deixa para trás o drama traumático da guerra e a aventura marítima repleta de monstros para abraçar um melodrama intenso, carregado de uma energia de thriller que escala em busca de alcançar catarses arrebatadoras, como também entrega alguns dos momentos dramáticos mais poderosos e emocionalmente densos de toda a carreira de Nolan. Tudo isso enquanto permanece bastante fiel aos acontecimentos centrais da história de Homero e incorporando suas próprias releituras temáticas de maneira extremamente fluida.
Devo, ademais, dizer que raramente vi a técnica de montagem fragmentada e de cortes paralelos de Nolan funcionar de maneira tão coesa e eficaz. Aproxima-se bastante da mesma linhagem estrutural de “Oppenheimer” e“O Grande Truque”, embora não exatamente da mesma forma, já que aqui ela é apresentada como um fluxo contínuo de uma consciência atormentada pelo passado, pelo presente e pelo futuro.
Apesar de tudo isso, preciso dizer que o elenco, no geral, não me conquistou completamente. Fora os anacronismos típicos da Hollywood contemporânea, todos cumprem bem suas funções. Robert Pattinson, em particular, está absolutamente perfeito como o típico canalha viscoso, oportunista e desprezível. Já os demais não chegam a causar uma impressão muito marcante. Todos são competentes e têm seus momentos para demonstrar presença em cena. Contudo, nenhum realmente oferece algo que desperte grandes comentários, o que, ironicamente, faz com que a presença sempre sólida de Matt Damon acabe dando corpo ao personagem mais interessante em cena e aquele para quem naturalmente gravitamos (algo que, convenhamos, é praticamente uma exigência em qualquer adaptação da Odisseia). É, sem dúvida, a versão mais fraca de Odisseu que já vimos, mas, ainda assim, bastante singular e dramaticamente fascinante à sua própria maneira — e, provavelmente, também a encarnação mais sanguinária do personagem, digna de John Wick.

Eu estava prestes a dizer a mesma coisa sobre a trilha sonora de Ludwig Göransson. Os temas e os acordes musicais, no entanto, são tão bons e criativos nessa pegada tecnotribal rústica, que simplesmente não consigo reclamar. E a única razão pela qual ela não é ainda melhor, ou imediatamente icônica, é porque Ludwig simplesmente atingiu o auge em “Oppenheimer” trabalhando ao lado de Nolan. Depois de um acerto daquele tamanho, era natural que não pudéssemos esperar outra obra magna logo em seguida.
Por mais que “Oppenheimer” ainda seja, de longe, um filme superior, até mesmo sua montagem podia se tornar um pouco difusa em determinados momentos (ainda que de forma deliberada). Já “A Odisseia” talvez represente um dos melhores trabalhos de montagem de toda a carreira de Nolan, mais uma vez graças a Jennifer Lame. Cada transição entre cenas é costurada à cena seguinte por associação ou ressonância emocional, e não simplesmente porque uma sucede a outra conforme determina o roteiro, ou por mera coincidência narrativa. Cada passagem é cuidadosamente construída com intenção dramática, encaixando-se como a conclusão de um arco emocional ou de uma revelação dramática.
Nolan emprega novamente aquele recurso clássico de sua filmografia de revisitar uma imagem apresentada anteriormente que ressurge, agora mentalmente transformada, depois que finalmente compreendemos seu verdadeiro peso moral. Talvez nunca antes essa ressonância dramática tenha sido alcançada de maneira tão evocativa quanto aqui, com o diretor exercendo domínio absoluto sobre sua própria fórmula. A montagem reorganiza violência e intimidade de forma altamente expressiva. Batalhas, perdas, encontros e lembranças domésticas constantemente misturam-se umas às outras, adquirindo a natureza fugidia da memória, como fragmentos da História e do próprio estado de existir.
No fim, é a cicatriz que revela o homem por inteiro. Não seu rosto, nem os relatos de seus feitos. Um grego já não é reconhecido por sua língua, mesmo falando o grego autêntico, como o velho camponês da vila na ilha que os homens de Odisseu saqueiam no primeiro ato, porque seus atos permanecem perdidos de propósito, afastados de sua terra natal. A etnia deixa de importar como fundamento da identidade de uma nação quando já não existe um lar para chamar de seu, ou quando a única forma de civilidade que ainda conseguimos reconhecer como comum sobrevive apenas através dos valores que um dia sustentamos como simples decência.
Isso corresponde ao motivo pelo qual Nolan escolheu adaptar esse mito tão antigo justamente hoje: menos para transmitir uma mensagem pseudo-humanista liberal sobre a realidade contemporânea de nosso complexo industrial militar — embora, sim, isso inevitavelmente esteja presente no lamento do protagonista por suas próprias ações —, e mais para refletir sobre esses mitos ancestrais. O Cavalo de Troia de Odisseu pode ser o equivalente da bomba atômica de Oppenheimer: sua maior conquista transforma-se na origem de seu sofrimento; ou, no caso de Odisseu, seu feito mais célebre — o “TRUQUE que derrubou os muros de Troia” — converte-se em sua maldição e em seu arrependimento. Mas, acima de tudo, Nolan parece interessado na própria ideia de mythos: o termo grego que traduz o próprio ato de contar histórias, “palavra”, “discurso” ou “narrativa”. Mais do que isso, esse termo representa o berço cultural em que a humanidade reconhece e expressa sua própria história e seus próprios indivíduos. É o ato de recontar, adaptar, encadear canções e poemas sobre as experiências humanas. É a forma como os fenômenos e as experiências vividas tornam-se a bússola para compreender a existência, a vida e a morte.

Cada encontro presente em “A Odisseia” preserva exatamente isso, assim como no poema de Homero: histórias dentro de histórias; cada geração transmitindo sua experiência por meio da narração. Mais do que qualquer outra coisa, “A Odisseia” de Nolan preserva essa meditação sobre o porquê de as histórias importarem. As histórias preservam a memória contra o esquecimento. Transformam sofrimento em compreensão. Permitem que os mortos continuem falando através dos vivos. Unem comunidades em torno de exemplos compartilhados de coragem, fracasso, astúcia, perda e reconciliação. É uma história sobre por que as histórias perduram e oferece um excelente argumento para explicar por que esta continua sendo uma das maiores narrativas já contadas.
Trata-se de um rico conjunto de antigos valores e tradições que resistiram ao teste do tempo: Honra. Hospitalidade. Família. A lei de Zeus, equivalente grego ao conceito de Xenia (a hospitalidade sagrada oferecida ao estrangeiro). “Trate os outros como gostaria de ser tratado”.Os bons anfitriões, como Menelau e Eumeu, contrapõem-se aos maus anfitriões, ou melhor, aos violadores da xenia entre os quais estão:
– o Ciclope, que literalmente devora seus hóspedes;
– os Lestrigões, que atacam em vez de acolher os estrangeiros;
– e os pretendentes, que consomem a casa de Odisseu enquanto abusam da hospitalidade que lhes foi concedida.
O filme advoga para que a lembrança desses ideais, preservados por nossas histórias mais antigas, seja a fonte da esperança que ainda nos resta. São ideais que continuam dignos de serem alçados, ao mesmo tempo em que a narrativa mostra o quão difícil é sustentá-los em um mundo fragmentado e como a civilização existe justamente em oposição à barbárie.
Honra não apenas como glória pessoal, mas como o lugar que cada indivíduo ocupa dentro de sua comunidade.
Família, como fundamento da civilização, da decência e da compreensão de que tudo isso começa dentro do próprio lar.
Hospitalidade como expressão da decência de uma ordem moral.
Uma ordem sustentada não apenas pelo poder ou pela conquista, mas pelas práticas cotidianas através das quais os seres humanos reconhecem a dignidade uns dos outros: acolher o estrangeiro, honrar a família, respeitar os deuses, lembrar-se dos mortos e manter a própria palavra.
Temos tudo isso, mas como bem diz Penelope:
“A estrutura não significa nada sem o respeito das pessoas pelo seu verdadeiro significado!”
Dito isso… concordo com você, Nolan. Estamos condenados, ou muito próximos disso. Vivemos isolados, degradados pela gula, como porcos assustados, fechados para o mundo lá fora, buscando apenas alimentar nosso próprio ninho por tempo suficiente para que o tempo passe por nós em algum conforto passageiro. Alguns ainda podem olhar ao redor, continuar vagando pelo mundo conhecido em busca de um lugar onde finalmente possam descansar. Os mistérios desta terra, contudo, continuam nos repelindo e sabotando a cada tentativa.
Ninguém pode ser confiado. A traição tornou-se a regra, porque nós mesmos fizemos dela a regra, agindo com indiferença e escolhendo o isolamento em relação aos outros. Vivemos com medo…
“Com medo da própria sobrevivência; um medo que não conhece amigos, apenas inimigos. Sem um objetivo, sem ordem, sem esperança.”
> (A Odisseia, dir. Franco Rossi, 1968).
Esse é o mecanismo de sobrevivência da modernidade. Ainda estamos vivendo o fim da Idade do Bronze: uma era em que as regras da hospitalidade deixaram de existir e a barbárie passou a reinar. E então cortamos para os dias de hoje… e continuamos explodindo civis com bombas nucleares para encerrar guerras. O fogo de Prometeu continua dominando o mundo, e o sol que tentamos alcançar ainda parece dolorosamente distante, pois:
“Violamos tudo aquilo que um dia foi sagrado entre as pessoas.”
Mas esta também ainda é, em espírito, uma história sobre Nostos: o retorno ao lar. O retorno do pai, do marido e do rei. O retorno ao lugar legítimo que alguém ocupa dentro da ordem moral e social. Odisseu precisa recuperar não apenas Ítaca, antes a si mesmo, para então transmitir essa Ítaca às futuras gerações e permitir que um novo amanhecer floresça.
Tudo isso soa como uma leitura excessivamente alegórica? Sim. Como um antigo poema hermético? Absolutamente não. A verdadeira questão é se você estará disposto a aceitar mais um acesso de completa insanidade criativa de Nolan, que, mais uma vez, entrega-se sem reservas para realizar um épico blockbuster voltado ao grande público, que é, porém, dez vezes mais sombrio e devastadoramente trágico do que qualquer um poderia esperar de alguém que não fosse ele próprio.
Continua sendo um filme imperfeito, mas profundamente intrigante até seu desfecho agridoce. Talvez seu maior mérito tenha sido justamente este: fazer com que Homero voltasse a ser assunto de conversa e recolocar suas profundas lições sobre a condição humana no centro do conhecimento popular, uma vez mais.
