
Mais do que nunca, e ainda mais do que “Ladrões de Bicicleta” (1948), “Umberto D.” (1952) encontrava Vittorio De Sicalevando a veracidade dramática do Neorrealismo ao seu limite máximo de honestidade desoladora. Chame isso de maturidade emocional vinda tanto da direção de Vittorio De Sica quanto do roteiro de Cesare Zavattini, ou ainda do golpe mais baixo possível: um protagonista idoso e triste (minha kryptonita). De qualquer forma, o resultado final atinge um nível de eficácia equivalente ao melhor que De Sica já entregou no que, muito provavelmente, é sua obra-prima definitiva.
Numa escala comparativa do que se poderia esperar dos filmes neorrealistas e de seus diretores, enquanto Roberto Rossellini, ao avançar dos anos, parecia mais interessado em transcender a forma e alcançar uma dimensão espiritual, De Sica aqui ainda parecia empenhado em provar o valor prático do movimento (isso antes de abraçar de vez o melodrama e as comédias mais tradicionais). De fazer cinema a partir de experiências reais vividas como fonte principal de um drama tangível, quase intocável, com impacto catártico total, especialmente depois de quase ter descarrilado tudo com “Milagre em Milão” (Vittorio De Sica, 1951), que ultrapassava os limites da fantasia piegas rumo a algo quase manipulador.

Tudo isso é, em grande parte, eliminado em “Umberto D”. Adotando uma postura observacional quase ausente, De Sica deixa esse pequeno fragmento da vida diária de Umberto desenrolar-se como se fosse em tempo real, guiado por movimentos naturais dos personagens entre si e com o ambiente ao redor. O resultado é o que parece ser sua obra mais plenamente realizada, ou pelo menos, aquela em que o diretor tem total domínio de sua voz. Ele captura o que, à primeira vista, poderia ser a essência perfeita de um melodrama hollywoodiano — um homem e seu cachorro tentando evitar o despejo enquanto aprende lições de vida com as pessoas ao seu redor — apenas para desmontar isso até os ossos numa análise brutal do desespero humano.
Seja ao situar a história no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, de fácil identificação, ou ao expandir isso para uma condição universal de etarismo e abandono social, o foco está no pobre Umberto, lutando para pagar a dívida com sua senhoria abusiva e evitar o golpe final em sua dignidade: virar um sem-teto. Ele enfrenta o abandono em total impotência. Tenta manter sua dignidade moral sem ter dinheiro para sustentá-la, orgulhoso e teimoso demais para aceitar sua situação, até mesmo para pedir esmola: até o momento em que o desespero o engole por completo e o niilismo quase toma conta.

Grande parte do filme parece vago e sem direção, justamente por essa natureza observacional, ainda mais quando, em raros momentos, mudamos o foco de Umberto para a jovem Maria, a empregada da casa onde ele aluga um quarto, e vemos o próprio recorte de solidão e desolação dela. Umberto, por causa da idade, é ignorado e deixado de lado, restando-lhe apenas seu cachorro Flike, enquanto Maria vive o oposto extremo: uma gravidez sem pai. O “início” da vida, bem como seu “limiar”, são rejeitados e afastados, sem ajuda ou empatia. Ambos, porém, encontram entre si uma conexão como párias dentro do ambiente social que habitam. Existe um olhar esperançoso e delicado compartilhado entre eles, mas, no fim, isso não é suficiente para mudar suas circunstâncias, servindo apenas como um ombro amigo.
Umberto, brilhantemente interpretado pelo não-ator Carlo Battisti, é o veículo perfeito para tornar tudo isso tão eficaz. Ele é falho até o limite: teimoso demais, às vezes até rude. Mas também emana sabedoria e uma bondade genuína, ligeiramente corrompida pela sua condição de estar perdendo tudo na vida, implorando por ajuda nas entrelinhas a conhecidos, vendendo seus pertences só para sobreviver a mais um mês de dívidas — e você sente cada momento disso, da vergonha ao constrangimento, até o completo esgotamento emocional. A descida de Umberto é dolorosamente identificável, um rosto entre muitos numa multidão infinita de almas negligenciadas e condenadas ao esquecimento.

O filme cumpre com excelência sua função neorrealista de provocar uma reflexão imersiva sobre um mal-estar social. A grande vitória de De Sica, contudo, é tornar isso profundamente complexo e devastador de forma tangível, sem recorrer a conflitos manipulados. Ele deixa tudo acontecer com uma naturalidade impressionante, que poucos cineastas conseguiram alcançar — talvez apenas Yasujirō Ozu e Robert Bresson cheguem perto. Aqui, a melancolia não é encenada: ela é vivida, construída passo a passo com um peso interno sufocante.
Assim como em Ladrões de Bicicleta, a meia hora final é praticamente um martírio contínuo. A busca tensa pela bicicleta naquele filme encontra eco aqui na busca de Umberto por Flike, com um suspense angustiante digno de qualquer thriller. Já os 20 minutos finais atingem um nível de transcendência raro, mesmo para os padrões de De Sica. Ao retornar ao núcleo da história — um homem e seu cachorro, a última coisa que dá sentido à sua vida — o filme nos lembra que passamos mais de 80 minutos criando vínculo com aquilo.

Mas será que o amor incondicional pelo cachorro é um símbolo de esperança e humanidade, mostrando que ainda podemos encontrar felicidade mesmo na escuridão? Ou seria apenas uma distração fútil e passageira rumo à desolação inevitável? O filme tem coragem de plantar essa dúvida sem hesitação. A resposta indefinida — assim como o final — talvez não seja tão esperançosa quanto aparente. À maneira de De Sica, porém, até a tragédia completa: Umberto, finalmente sucumbindo a tornar-se um velho solitário e sem lar, é filmado com um leve brilho de alegria pela própria vida, com todas as suas misérias.
Não importa a que nos apegamos ou a situação que vivemos, ainda pode haver esperança. “Umberto D.”, ao retratar um recorte tão autêntico da realidade, permite-nos enxergar uma centelha dessa esperança para construir um amanhã melhor. Se houver o mesmo nível de amor e cuidado pelo próximo que um homem tem por seu cachorro, então talvez ainda exista alguma chance de decência nesta vida.
