
Inevitavelmente, qualquer filme found footage passará pelo olhar comparativo dos grandes clássicos do subgênero, principalmente do paradigmático “A Bruxa de Blair” (Daniel Myrick; Eduardo Sánchez, 1999), o ponto alto do sistema antes experienciado pela primeira vez de forma observável por “Holocausto Canibal” (Ruggero Deodato, 1980). Houve boas tentativas de repensar o gênero, como “REC” (Jaume Balageró; Paco Plaza, 2007), que aglutina outros subgêneros, como filmes de zumbi, algo audacioso em seu período de lançamento e que rendeu inúmeras continuações.
Um gênero que já “perdeu” sua inocência. O público já conhece suas regras e os locus funcionais da ambientação, onde seus arranjos operam com maior potência, como a floresta, o domicílio, estruturas com baixa iluminação e espaços fechados. Fatos evidenciados magistralmente por “A Visita” (M. Night Shyamalan, 2015), em um exercício que rearticula, tardia e conscientemente, os dispositivos e suas convenções de forma metalinguística integrada aos interesses dramatúrgicos do Shyamalan sem negligenciar a primazia do gênero.
A provocação que “POV – Presença Oculta” (“Bodycam”, Brandon Christensen, 2025) oferece, em meio a tantas tentativas de tensionar ou romper com seus antecessores, é a de evocar o seguro, mergulhar com confiança no que há de mais consolidado no gênero, buscando seu lastro nos grandes ícones que o antecedem. Trata-se de um filme majoritariamente situado em um bairro marginalizado, separado da sociedade “normal”, onde pessoas zumbificadas circulam sob baixa iluminação, entre ruas escuras, árvores e casas depredadas, com ratos, buracos e o constante ranger da madeira.

Uma chamada de emergência leva dois policiais a resolverem uma briga doméstica, mediador narrativo que os conduz a adentrar esse labirinto místico e assustador, tão imprevisível quanto os corredores e escadarias de “REC”. Também uma ambientação externa que flerta levemente com “A Bruxa de Blair” pela sensação de incomunicabilidade com o mundo fora daquele espaço amaldiçoado, e um ambiente interno marcado pela imprevisibilidade, com o tratamento de luz e som avultando todo e qualquer movimento naquele espaço hostil, junto ao olhar limitado dos personagens que dependem de luzes artificiais (que constantemente falham ou pouco ajudam).
O dispositivo é muito simples e direto. As câmeras são justificadas pela ação policial, algo que se tornou comum tanto pelo consumo de conteúdos, como videovlogs de ação policial, quanto por debates sobre a necessidade desses aparelhos para assegurar as ações dos policiais e proteger o direito dos abordados. Há também uma referência a um caso polêmico ocorrido em Hyde Park, NY, em que um episódio “similar” de violência policial chamou atenção pela vítima feminina e o contexto familiar.

Bem situado em nossos tempos, isso é o suficiente para trazer um convencimento criativo, evitando um movimento facilmente reconhecido, mas ainda dentro da lógica do registro documental dos eventos paranormais como provas do fantástico, explorando o que há de mais funcional e interessante em “A Bruxa de Blair” e “REC”, nesses cenários e com as limitações orçamentárias, característica compartilhada entre os três filmes.
Um caminho seguro, hábil e cativante, mas que, em certo ponto da narrativa, rompe com essa segurança ao evidenciar mais diretamente seu vilão lovecraftiano, que expõe a insignificância e a impotência humana por meio de sua seita. Então descobrimos que ele, na verdade, possuía os entes, justificando o comportamento alienado e delirante das pessoas do bairro marginalizado, convertendo a zumbificação em possessão.
Algumas escolhas, após essa investigação mais profunda da trama, a meu ver, acabam inchando o filme, principalmente pela mudança de textura nas cenas no carro, onde uma definição maior é visivelmente imposta para um trabalho mais “convincente” do CGI. O processo do Digital Intermediate, que naturalmente comprime e descarta dados, algo necessário para gravar em alta resolução, corrigir luz e cores e comprimir depois, surge como uma boa solução para preservar o aspecto de low definition comum dos found footage investigativos e documentais dos anos 2000, sem sacrificar algumas cenas noturnas que poderiam não funcionar bem em um sistema de gravação mecanicamente mais limitado. Esse cuidado, no entanto, aparentemente é traído no terço final do filme.

As cenas, em especial as da ligação entre mãe e filho, e o uso estilizado do CGI deslocam o caminho que vinha sendo construído. A presença do monstro aposta nesse Lovecraft mais físico e menos sugestivo, o maior risco abraçado no projeto. Mesmo não me agradando tanto, percebo que isso fortalece a mitologia do universo, estabelecendo o maravilhoso como factual naquele espaço de inseguranças e dúvidas sobre os eventos e as pessoas com comportamentos inexplicáveis. Contudo, a aparição direta da criatura e sua integração no plano causam grande estranhamento, não pela sua natureza em si ou pela manifestação do “medo”, mas pelo destacamento inevitável dos efeitos especiais, inutilmente maquiados pela visão noturna monocromática da reta final, o que claramente não é suficiente para convencer em meio a um conjunto com um aspecto pro-fílmico, sem mediações, que se pretendia como ápice.
Isso coloca em xeque um dos elementos basilares do subgênero. “POV – Presença Oculta” não deixa de produzir efeito de realidade como seus antecessores pelo seu método de captura, mas, até que ponto a inserção de elementos mais artificiais, sobretudo na materialização do horror, tensiona ou contradiz essa base? Talvez o filme busque um equilíbrio entre ambas as possibilidades, o que mais pareceu uma colisão mal resolvida entre os possíveis caminhos que filme poderia tomar, enfraquecendo a coerência que havia sido construída até ali e desestabilizando o que poderia ser um dos melhores e mais marcantes exercícios do found footage desde “A Visita”.

Gostei bastante da sua análise – dá pra perceber que você tem um olhar afiado pro found footage, principalmente na forma como conecta A Bruxa de Blair e REC sem ficar só na comparação óbvia. O texto flui bem e, mesmo quando entra em pontos mais técnicos, continua fácil de acompanhar.
Pra mim, o destaque é quando você fala da quebra de imersão no momento em que o filme começa a mostrar demais, e particularmente, prefiro que o filme me de a sensação de que algo está errado, mas sem precisar me mostrar isso de forma direta, então, isso me incomodou um pouco também. Isso conversa muito com o que fez A Bruxa de Blair funcionar tão bem – ele evita ao máximo mostrar algo concreto – e também com REC, que segura o realismo usando luz e câmera dentro da própria cena, sem depender tanto de efeitos mais evidentes.
Ficou uma leitura bem consistente e gostosa de acompanhar. Irei esperar ansiosamente pela próxima análise.
👏🏽
Boa análise. Transmite bem a capacidade, meritos e demérito, tal qual como o que se esperar do filme sem entra em por menores a respeito da trama mesmo sem ter assistido. Muito bom.